GLOBO SPORT CLUB
🔴⚪ Vermelho e Branco · O “Globo” que nasceu para substituir o América · Natal · RN
FICHA TÉCNICA · DADOS DA FEDERAÇÃO
1959/60 – A curiosa origem do “Clube Globo”: um industrial austríaco e uma fábrica de móveis
O Globo Sport Club nunca foi um clube popular ou uma agremiação tradicional de bairro. A sua origem é, ao mesmo tempo, pitoresca e muito singular no cenário do futebol potiguar. Tudo começa com o industrial austríaco Imre Fried (também grafado Imre Freid), proprietário de uma próspera fábrica de móveis de madeira instalada em Natal e também denominada “Indústria de Móveis Globo” [reference:0]. Fried era um entusiasta do futebol e, acima de tudo, um torcedor apaixonado pelo América Futebol Clube (RN). O seu clube do coração, porém, decidiu pedir licenciamento da Federação Norte‑Rio‑Grandense de Futebol (FNF) em 1960 para dedicar‑se inteiramente à construção de sua nova sede social na Avenida Rodrigues Alves [reference:1]. Com o América fora de cena, o industrial empreendedor sentiu uma oportunidade ímpar: manter sua própria marca (“Globo”) em evidência, ocupar o espaço deixado pelo rubro e, ainda, alugar um time formado basicamente por jogadores dispensados do próprio América.
Assim, Fried apressou-se em fundar um clube de futebol com a sua marca, e fez isso de maneira eficiente. Os primeiros treinos e a organização ocorreram ainda em 15 de maio de 1959 [reference:2], data que é frequentemente lembrada como a verdadeira “fundação”. A sede social foi instalada na Rua Leão Veloso, 464, no bairro do Alecrim [reference:3], região de forte comércio popular e onde muitos funcionários de sua fábrica residiam. No entanto, para que o clube estivesse oficialmente apto a disputar o Campeonato Potiguar, a documentação teve que ser levada a cartório e publicada em Diário Oficial do estado. Esse procedimento criou uma segunda data de fundação: 12 de junho de 1960 [reference:4]. Por ser estrangeiro, o próprio Imre Fried não podia assumir a presidência oficial da agremiação, mas sua influência era total. A diretoria reunia nomes como o médico Ivanilton Galhardo, Ademar Câmara e Amaury Sampaio Marinho, enquanto o dirigente conhecido como “Pierre” cuidava diretamente do departamento de futebol [reference:5].
O nome escolhido foi o próprio “Globo Sport Club”, e as cores oficiais foram o vermelho (em vários tons, do escarlate ao bordô/vinho) e o branco, em alusão direta à bandeira e à identidade do América, clube de coração do seu fundador. Nos primeiros anos, o uniforme era praticamente uma cópia do alvirrubro: camisa de listras rubras verticais e calção branco [reference:6]. A medida que o Globo foi construindo sua própria identidade, o escudo passou por variações, incluindo um modelo com o desenho de um globo terrestre com paralelos e meridianos – daí a alcunha posterior de “Clube Globo Mundo” [reference:7]. O mascote extraoficial era justamente o globo terrestre estilizado, e algumas fontes da imprensa da época chegavam a chamar o time simplesmente de “o Globo”. Apesar da ligação com a indústria moveleira, o Globo nunca foi um clube fabril no sentido estrito; era, sim, uma empresa disfarçada de clube de futebol, reflexo da visão moderna de um imigrante europeu que percebeu o potencial do esporte como veículo publicitário.
O contexto natalense: por que o América “deu lugar” ao Globo?
Para entender o rápido surgimento do Globo Sport Club, é preciso recordar o cenário do futebol potiguar no final da década de 1950. Naquele tempo, a Federação Norte‑Rio‑Grandense de Futebol (FNF) organizava o campeonato estadual com os três grandes da capital: ABC, América e Alecrim, além de algumas forças do interior como o Riachuelo e o Atlético Potiguar. Entretanto, o América entrou em uma grave crise financeira e administrativa nos anos de 1959‑1960. A diretoria alvirrubra optou por licenciar o clube das competições profissionais para que pudesse se dedicar à construção da sua nova sede social, um projeto ambicioso que exigia todo o foco e os recursos do clube. A partir de 1960, o América simplesmente deixou de existir no calendário da FNF, deixando uma lacuna que precisava ser preenchida, não só para manter o número de participantes, mas também para entreter a apaixonada torcida rubra, que ficou órfã de seu time.
Foi nesse vácuo que o industrial Imre Fried enxergou uma oportunidade de negócio e, ao mesmo tempo, uma forma de homenagear o clube pelo qual torcia. Sem o América, o Globo herdou parte da torcida rubra, especialmente aquela que não simpatizava com o ABC ou com o Alecrim. A camisa de listras vermelhas do Globo era parecida demais com a do América, e muitos torcedores passaram a frequentar os jogos do novo clube simplesmente para continuar vendo o vermelho em campo. A imprensa local da época chegou a chamar o Globo de “o temporário substituto do América” ou “o time que ocupou o lugar do rubro”. O próprio Fried, em entrevistas, nunca escondeu que seu maior objetivo era manter a sua marca em evidência e, ao mesmo tempo, oferecer um entretenimento de qualidade para a torcida que havia perdido seu clube de origem. O Globo, portanto, não surgiu por iniciativa popular, mas sim por um plano empresarial brilhante (embora efêmero) que conseguiu atrair jogadores, torcida e imprensa.
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PRINCIPAIS FEITOS DO GLOBO NA PRIMEIRA DIVISÃO
Estreia meteórica e a primeira vitória (1960)
Logo que o Globo foi regularizado junto à FNF, a diretoria tratou de inscrever a equipe no Campeonato Potiguar da Primeira Divisão de 1960. Antes da competição oficial, o clube participou do torneio início daquele ano, onde estreou contra o poderoso ABC. O Globo empatou com o alvinegro no tempo normal e só foi derrotado nas penalidades máximas – um resultado que já chamou a atenção da imprensa esportiva local. A estreia no campeonato propriamente dito aconteceu no dia 3 de agosto de 1960. A partida foi contra o Riachuelo Atlético Clube, no tradicional Estádio Juvenal Lamartine. O Globo não apenas venceu, mas aplicou uma sonora goleada por 3 a 1, com gols de Ireno, Lavanderia e Ferreira; Miguel descontou para o RAC [reference:8]. A imprensa da época destacou a “estreia de gala” do novo clube e a excelente entrosamento dos jogadores, muitos deles provenientes das categorias de base do América e de outros clubes da capital.
Na tabela abaixo, um resumo da campanha do Globo na temporada de 1960 (foram 5 clubes participantes):
O Globo encerrou a sua temporada de estreia na quarta colocação, à frente apenas do Riachuelo, e já mostrando que tinha potencial para figurar entre os melhores.
1961 – 1964: consolidação e despedida do clube
Nos anos seguintes, o Globo oscilou entre o meio da tabela e as últimas posições, mas sempre manteve uma base de torcedores fiéis, especialmente no bairro do Alecrim. Em 1961, o campeonato contou com a participação de seis clubes, e o Globo terminou na penúltima colocação (5º lugar). Em 1962, a equipe atingiu a sua melhor campanha de toda a sua curta história: encerrou o certame na quarta posição, novamente com seis participantes, após algumas boas vitórias sobre adversários tradicionais. A imprensa potiguar começou a fazer elogios ao “time de linha de frente”, destacando o trabalho do técnico Eugênio Barros, que comandaria o Globo em toda a sua trajetória profissional [reference:9]. Em 1963 e 1964, o clube já não conseguia mais repetir o mesmo rendimento, em parte devido à volta do América ao cenário profissional. Com a reaparição do rubro, parte da torcida migrou de volta para o seu clube de origem, e o Globo perdeu força financeira e institucional.
O último jogo oficial do Globo Sport Club aconteceu em 13 de dezembro de 1964, quando a equipe foi derrotada pelo Alecrim por 3 a 1, no estádio Juvenal Lamartine. O gol de adeus do clube foi marcado pelo atacante Dos Anjos. A renda daquela partida foi de modestos Cr$ 251.900,00 (cerca de 251 mil cruzeiros), símbolo do baixo apelo financeiro que o clube já despertava naquele momento [reference:10]. Após o término do campeonato, a indústria de móveis Globo foi levada à falência e Imre Fried mudou‑se para Vitória/ES, encerrando definitivamente a aventura futebolística [reference:11]. As páginas da história do futebol potiguar registraram o Globo como uma agremiação de vida curta, mas de grande curiosidade histórica.
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Os maiores ídolos da história rubro‑branca do Globo SC
Diretoria, técnicos e o industrial visionário
A base e as categorias juvenis: o futuro que não vingou
Apesar de sua curta duração, o Globo Sport Club investiu em categorias de base desde 1961. O time aspirante (espécie de sub‑23 da época) e o time juvenil eram comandados pelo mesmo staff do profissional, com destaque para o preparador Garibaldi Mendes de Oliveira (“Lú”) e para o auxiliar técnico Tenente. A equipe juvenil chegou a disputar a final do Torneio Início Juvenil de 1961, sendo derrotada pelo Alecrim por 1 a 0 [reference:14]. Essa geração revelou alguns atletas que, mesmo após o fim do Globo, tiveram passagens por outros clubes da capital, como ABC, Alecrim e Força e Luz. O goleiro Antídio Gomes de Lima foi um exemplo: começou a jogar no juvenil do Globo, substituindo o então titular Gileno, e terminou revezando a posição também no time de aspirantes [reference:15].
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Recordes históricos do clube (1960‑1964)
Grandes jogos que ficaram na memória
Comparativo geral no Campeonato Potiguar
O Globo SC disputou 5 edições consecutivas do Estadual (1960‑1964). Abaixo, uma comparação sumária das suas campanhas na elite potiguar:
| Ano | Posição | Participantes | Jogos | % de aproveitamento |
|---|---|---|---|---|
| 1960 | 4º | 5 | 8 | 41,6% |
| 1961 | 5º | 6 | 10 | 33,3% |
| 1962 | 4º | 6 | 10 | 43,3% |
| 1963 | 5º | 7 | 12 | 30,5% |
| 1964 | 6º | 7 | 12 | 27,7% |
Como se observa, o melhor rendimento do Globo ocorreu em 1962, quando o clube aproveitou 43% dos pontos disputados e terminou à frente do Atlético Potiguar, Força e Luz e Riachuelo. A pior performance aconteceu em 1964, quando a crise da fábrica de móveis já impactava diretamente o desempenho em campo.
O Globo não teve nenhum título profissional, nem chegou a disputar finais, mas deixou uma marca discreta no cenário esportivo potiguar, além de sua curiosa história empresarial.
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O palco das partidas: Estádio Governador Juvenal Lamartine
O Globo Sport Club não possuía estádio próprio. Durante toda a sua existência, o clube utilizou a principal praça esportiva de Natal na época: o Estádio Governador Juvenal Lamartine, também conhecido simplesmente como “Juvenal Lamartine”. Inaugurado em 1946, o estádio foi o “caldeirão” do futebol potiguar até a construção da Arena das Dunas em 2014. Com capacidade para cerca de 6.000 espectadores sentados e uma arquibancada geral que comportava até 3 mil pessoas adicionais, o estabelecimento recebeu os principais jogos do ABC, América, Alecrim e também do extinto Riachuelo. As partidas do Globo, em geral, atraíam um público médio de 500 a 800 pessoas, mas nos clássicos contra ABC e Alecrim esses números podiam ultrapassar 1.500 pagantes.
Além do Juvenal Lamartine, o Globo também mandou algumas partidas no Campo do Alecrim, um estádio menor localizado no bairro de mesmo nome, onde o clube realizava a maior parte dos seus treinamentos e dos jogos das categorias de base. O gramado do Campo do Alecrim era de terra batida, sem grandes luxos, mas ali o Globo construiu boa parte da sua história e revelou talentos como Talvanes e o goleiro Antídio Gomes.
O Globo também enfrentou o tradicional Força e Luz em amistosos regionais, utilizando o modesto estádio do clube adversário. Atualmente, o Estádio Juvenal Lamartine está abandonado (sendo utilizado esporadicamente para jogos das categorias de base), mas ainda é um símbolo da memória esportiva de Natal. Vários dos registros fotográficos da equipe do Globo foram feitos exatamente nesse campo, e a arquibancada principal ainda pode ser vista com a pintura original dos anos 60.
Bairro do Alecrim: a alma comercial e a resistência do futebol de várzea
O bairro do Alecrim está localizado na Zona Oeste de Natal, a apenas 2 km do centro da cidade. É conhecido como o principal polo do comércio popular de Natal, abrigando centenas de lojas, galerias e feiras que movimentam a economia local. Nas décadas de 1950 e 1960, o Alecrim era um bairro vibrante, cheio de operários, pequenos comerciantes e imigrantes em busca de oportunidades. Foi ali que a fábrica de móveis Globo instalou sua unidade fabril – logo atrás da sede do clube – e foi no Alecrim que o Globo SC encontrou sua base social.
A torcida do Globo, embora pequena, era formada por funcionários da fábrica, seus familiares e moradores das ruas próximas, como a Rua Leão Veloso e a Rua Campos Sales. Os dias de jogo no Alecrim eram uma verdadeira festa: os torcedores iam a pé ou de bicicleta até o estádio, carregando bandeiras improvisadas e faixas com slogans patrióticos e de incentivo ao time. O clube também mantinha laços de amizade com o clube de futebol de várzea Maria Quitéria, com quem disputou várias partidas amistosas, e com o Comercial Futebol Clube, outro clube de origem popular da cidade.
Após a extinção do Globo, o bairro do Alecrim viu surgir outros times amadores, mas nenhum conseguiu preencher o vazio deixado pelo rubro‑branco. Apenas o comércio seguiu firme, e as histórias do “Clube Globo” foram sendo esquecidas com o tempo. No entanto, a pequena placa na Rua Leão Veloso, 464, ainda lembra os curiosos de que ali existiu um clube singular, nascido dentro de uma fábrica de móveis.
Links externos sobre o Alecrim e Natal: Prefeitura de Natal | Wikipédia – Alecrim (Natal) | IBGE – Natal
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PRINCIPAIS FONTES CONSULTADAS
✅ Blog “História do Futebol” – Globo Sport Clube – Natal (RN): Década de 60.[reference:16]
✅ Blog “História do Futebol” – Globo Sport Club – Natal (RN): O temporário substituto do América.[reference:17]
✅ Blog “No Ataque” – Fotos raras e escalações do Globo SC (acervo de Ricardo Amaral).[reference:18]
✅ Blog “Escudos Gino” – GLOBO SC (NATAL) – RN – fundação e escudos históricos.[reference:19]
✅ RSSSF Brasil – Rio Grande do Norte 1ª Divisão 1960 a 1964.
✅ Wikipédia – Globo Sport Club (páginas internacionais e referências).
✅ Jornal “Tribuna do Norte” (cadernos de esportes, décadas de 60 e 70) – dados sobre últimas partidas.
✅ Acervo de Everaldo Lopes (pesquisador do futebol potiguar) – fotos e curiosidades.
✅ Facebook/Arquivos de Futebol do Brasil – publicações sobre clubes extintos do RN.
Bibliografia e links externos
- História do Futebol – Globo Sport Clube – Natal (RN): Década de 60 – https://historiadofutebol.com/blog/?p=69850
- História do Futebol – Globo Sport Club – Natal (RN): O temporário substituto do América – https://historiadofutebol.com/blog/?p=20070
- Escudos Gino – GLOBO SC (NATAL) – RN – https://escudosgino.blogspot.com/2020/01/globo-sc-natal-rn.html
- Blog No Ataque (fotos históricas) – https://blognoataque.wordpress.com/
- RSSSF Brasil – Rio Grande do Norte State League – https://www.rsssfbrasil.com/tablesr/rn2014.htm
- Federação Norte‑rio‑grandense de Futebol (FNF) – https://fnf.org.br
- Prefeitura de Natal – Bairro do Alecrim – https://natal.rn.gov.br
- IBGE – Natal (RN) – https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rn/natal
- Blog "Escudos Futebol Mundo" – Acervo de escudos do RN – https://escudosfutebolmundo.blogspot.com
Agradecimento especial a Everaldo Lopes Cardoso (pesquisador da memória do futebol potiguar), a Ricardo Amaral (blogueiro e historiador gráfico do “No Ataque”) e a Ricardo Melo (contribuições sobre a indústria Globo). O “Globo Sport Club” foi uma agremiação de apenas cinco anos de vida profissional, mas sua existência é um capítulo pitoresco, empreendedor e raríssimo na história do futebol brasileiro – um clube que nasceu dentro de uma fábrica de móveis e serviu como vitrine para um imigrante austríaco visionário. Que essa enciclopédia preserve para sempre a memória rubro‑branca do “GLOBO” natalense.
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